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MURAL LITERÁRIO

OFICINA POESIA DE LUTO E DE LUTA / EXPOSIÇÃO SIRON FRANCO
OFICINA
POESIA DE LUTO E DE LUTA
Com Michaela Schmaedel e Reynaldo Damazio
Terças e quintas-feiras, 10, 15 e 17 de fevereiro de 2022, das 18h às 20h

Pensar e escrever sobre a morte no poema: a partir da exposição de Siron Franco, na Casa da Rosas, na qual o artista homenageia as trágicas perdas pela covid-19 no Brasil, a oficina propõe ler e discutir poetas em que o luto seja o tema central. Os participantes serão convidados a criar poemas a partir da dor pessoal e coletiva, enquanto observam a instalação de Franco. Excertos dos textos serão posteriormente expostos no mesmo jardim em que estarão as obras do artista.

Autores:
Nicola Gonzaga
Maria Cristina Cardoso Pereira
Arlete Mendes
Jéssica Moreira
Clarice Werneck
Leucio Guerra
Monica Martins
Mabelly Venson
Victoria Elizabeth

POEMAS:

SOLTO
Sabe-se que com o tempo quase perdemos a falta
daquele costume duro
que é a presença de um corpo todo

É como se o corpo
em viagem
quase entidade e
intocável
estivesse em algum país longínquo
pouco acessível
Wi-fi oscilante
arquipélago exótico

Muita ausência preenche
A estranheza ridícula
No lugar de um corpo:
Ao invés de presença vem
memória
mole
(O abismo do lugar de um corpo é uma coisa dura)

fazendo coisas que fazem um corpo
Mas que não se pode
enviar
e-mails
Cartas
Mensagens
WhatsApp
Telegram
ou chegar

(ainda?)

O oco que fica no lugar de um corpo
É um corpo
Invisível e não encontrado
Que se torna
Pouco

Até que sejamos nós
Quem sabe
em diferente configuração de corpo
habitando arquipélagos longínquos
Fazendo coisas de um corpo
Sem se dar por ele
Ocupados demais para
Telegram
mensagens
WhatsApp
e-mails

A presença oca
Que causa a ausência de um corpo
É finita

E aí
Teremos deixado
naquele mesmo oco
O lugar do pouco
Ausentes da trama principal
Dos corpos de lá
Tornando
Quem sabe
tudo mais
Compreensível
Teatral
Polimorfo
Sopro

Nicola Gonzaga

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TÚNEL DE VENTO

Me pegou pela mão para conhecer o metrô
“De um jeito que você nunca viu"
Passamos por cancelas, túneis e hélices
Redondas, gigantes, iguais depois da primeira
Até que vinha um silêncio ameaçador
Quebrado pelo vento encanado e pelo barulho alto
Dos trilhos lutando contra o trem
- Pare aqui. Ouça. Olhe. Para cima!
E era uma grade quadrada, furada e invadida
Pela lufada de vento que vinha do túnel
Que subia e sacudia as saias, que se erguiam
- Mas, pai, dá para ver as calcinhas!
Sonhei que os corpos estavam pendurados na grade
A ventania levantava as almas
- Mas, pai, dá para ver as calcinhas?
- Não, filha. Daqui, de onde a gente olha, ninguém tem mais nada a esconder

Maria Cristina Cardoso Pereira

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FORCA

vento

f r e s t a

ao metal
melindra

corpos


s u s

p e n

S O S

no ballet
do tempo

ainda osculam
ainda oscilam

anônimos
sinos que

tilintam
tilintam
tilintam

Arlete Mendes
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os santos transpassam a parede
suspensos
no rádio
suas vozes penduradas
cantam

o padre-nosso
a ave-maria
gritam socorro

falta uma conta nesse terço

na cozinha
ainda se ouve
o apito da chaleira
fervendo chá de gengibre
cuspindo o resto na pia

as chinelas esfregando
chão de cera vermelho
as baratas olhando fundo
meus medos caducos

as telhas rachadas por
todas as chuvas de
janeiro
fevereiro
março
abril
janeiro outra vez

onde está santa bárbara

no mesmo buraco
onde vão todas as fotos
congeladas no fundo
de uma lata enferrujada
de leite em pó

no lugar da borra
um passado em p&b

ela segurando a minha mão
na beirada da calçada
da escola

o almoço cheirando
fim de gás
fim de mês
a mesa esgotada

no fundo da lata
esses sapatos
no fundo da lata
essas calças estendidas
no fundo da lata
um varal de trechos
não percorridos

a chuva vai pingar
outra vez
eu sei
e vai levar tudo embora
outra vez
eu sei
e vai arrastar
o pó pra debaixo da terra
outra vez
eu sei

bagunçando o destino
desse pedaço de papel
que não amassa
nem um centímetro
desse vai-e-vém
de quem fica
e de quem vai

onde está santa bárbara

Jéssica Moreira

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POLIFONIA PANDÊMICA

Ânsia. Hora da xepa
A bola rolando e você nem... nem pá
A vida voltando
e você?

Mas e essa nova cepa
A última vez que nos vimos?
Tá, devolvo a camiseta
Ainda não entrei no metrô
Não é que eu tenha medo
Você não acredita: ele chamou de exagero
Olha bem pra minha cara
Vamo sim, jajá vem a vacina
E como foi voltar pra superfície?
Amanhã eu faço teste
Esse cara tinha que estar numa catacumba qualquer
Furei... é que o tesão tava forte
Ele desperta meus pensamentos mais violentos
Como é?
Uma imundície isso sim
Quero conhecer seu quarto
Não acredito
Morreu quando?

Clarice Werneck
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ELA

Ela pousou a sua sombra sobre ti,
pela pentilésima vez confirmando sua inexorabilidade.

O teu sombreamento feriu a mim,
em minha vulnerabilidade.

E assim como eu, todos nós
fomos atingidos, nós que usufruíamos de tua humanidade.

Ela é onipresente, e espreita a todos nós, vós, eles,
em sua voracidade.

Leucio Guerra

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AGORA

De ti, agora, somente a lembrança.
Ausência e presença
em estranha aliança.

Das fontes vitais que te regaram
em tempos idos,
as águas secaram.
Paradoxalmente, no entanto,
ouvem-se ainda no ar as vozes
do teu canto.

Teus dias esgotados revelaram
a medida do fio de vida que a ti
as Moiras legaram.
Mas a luz da trama dos teus passos
deixou entrever a infinitude
dos teus laços.

Quando teus olhos fecharam,
como predisse um poeta
os espelhos cegaram.
Mas, agora, para além da aparência,
paira sobre as coisas todas o brilho
da tua existência.

Agora, és luminescência.

Leucio Guerra

----------------------

CALADA
pássaro rebelde aprisionado

ondula no mar de vento
qual alga suspensa
ondula no vestido amarelo

calado sem marcação

Carmen
calada

Lillas Pastia
sorve do vinho

Amarga Manzanilla


Monica Martins

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365 MAIS 1

Todo dia nasce uma pessoa,
nasce um tipo de gente.
Todo dia nasce alguém grande.
Nasce alguém esperto.
Nasce mulher.
Nasce branco.
Nasce rico.
Nasce pequeno.
Nasce conformado.
Nasce indígena.
Nasce professor.
Nasce abandonado.
Nasce picareta.
Nasce doente.
Alguém nasce em berço de ouro.
Nasce gorda.
Nasce preto.
Nasce homem.
Nasce mirrado.
Nasce pobre.
Nasce amando.
Nasce inquieto.
Nasce motorista.
Nasce sofrido.
Nasce empregada doméstica.
Nasce viado.
Nasce condenado.
Alguém nasce no mundo da lua
Nasce cantora.
Nasce puta.
Nasce andarilho.
Nasce transgênero.
Nasce artista.
Nasce idiota.
Nasce moribundo.
Nasce inteligente.
Nasce petista.
Nasce sonhador.
Nasce cabeludo.
Nasce calorento.
Alguém nasce bondoso.
Nasce sovina.
Nasce cego.
Nasce burro.
Nasce esperançoso.
Nasce modelo.
Nasce chinesa.
Nasce ciclista.

Nasce azarado.
Nasce extrovertido.
Nasce diabético.
Nasce controlador.
Nasce banguela.
Alguém nasce para ser servido.
Nasce órfão.
Nasce honesto.
Nasce feliz.
Nasce patroa.
Nasce desafinado
Nasce ladrão.
Nasce mudo.
Nasce budista.
Nasce inadimplente.
Nasce estressado.
Nasce youtuber.
Nasce escritor.
Todo dia alguém já nasce excluído.
Nasce mentiroso.
Nasce nadador.
Nasce feminista.
Nasce neto.
Nasce ansioso.
Nasce frustrado.
Nasce barbeiro.
Nasce gótico.
Nasce com sono.
Nasce travesti.
Nasce magro.
Nasce desgraçado.
Alguém nasce livre.
Nasce incrédulo.
Nasce traficante.
Nasce manhoso.
Nasce desnutrida.
Nasce imigrante.
Nasce advogado.
Nasce desenhista.
Nasce promíscuo.
Nasce passista.
Nasce silencioso.
Nasce albino.
Nasce desajuizado.
Infelizmente, nasce machista.
Nasce chorona.
Nasce louco.
Nasce atleta.

Nasce gago.
Nasce coletor de lixo.
Nasce moreno.
Nasce sindicalista.
Nasce vaidosa.
Nasce maconheiro.
Nasce bibliotecária.
Nasce decepcionado.
Nasce carnívoro.
Alguém nasce dominado.
Nasce anão.
Nasce peregrino.
Nasce muçulmano.
Nasce motociclista.
Nasce triste.
Nasce pajé.
Nasce programador.
Nasce hiperativo.
Nasce comissária de bordo.
Nasce assexuado.
Nasce baiano.
Nasce depressivo.
Nasce alguém com a unha encravada.
Nasce editor.
Nasce polígamo.
Nasce cobrador.
Nasce desesperado.
Nasce beata.
Nasce enjoado.
Nasce hipertenso.
Nasce alegre.
Nasce bancário.
Nasce divorciada.
Nasce disposta.
Nasce esperto.
Nasce alguém invejável.
Nasce distraída.
Nasce maldoso.
Nasce sortudo.
Nasce reservado.
Nasce irmão.
Nasce cozinheiro.
Nasce iludido.
Nasce roqueira.
Nasce obeso.
Nasce beijoqueiro.
Nasce caixa de supermercado.
Nasce descrente.

Alguém nasce cheio de certezas.
Nasce manipulador.
Nasce irmã.
Nasce lésbica.
Nasce poeta.
Nasce manco.
Nasce padre.
Nasce segurança.
Nasce celíaco.
Nasce subversivo.
Nasce pai.
Nasce fiel.
Nasce político.
Alguém já nasce otimista.
Nasce discreta.
Nasce imbecil.
Nasce benevolente.
Nasce madrinha.
Nasce cisgênero.
Nasce forte.
Nasce arquiteta.
Nasce paciente.
Nasce orelhudo.
Nasce manicure.
Nasce mãe.
Nasce santa.
Todo dia alguém nasce alienado.
Nasce asqueroso.
Nasce pagodeiro.
Nasce artesã.
Nasce reitor.
Nasce suicida.
Nasce simpático.
Nasce confiável.
Nasce hétero.
Nasce líder.
Nasce deficiente.
Nasce garçom.
Nasce estúpida.
Nasce alguém caridoso.
Nasce carismático.
Nasce repulsivo.
Nasce iraniano.
Nasce curioso.
Nasce avô.
Nasce trapaceiro.
Nasce cúmplice.
Nasce ridículo.

Nasce musculoso.
Nasce pintor.
Nasce rapper.
Nasce boêmio.
Todo dia alguém nasce silenciado.
Nasce meloso.
Nasce chorando.
Nasce centrado.
Nasce indeciso.
Nasce torcedor.
Nasce fumante.
Nasce estudante.
Nasce atrasado.
Nasce contador.
Nasce indigente.
Nasce grisalho.
Nasce florista.
Nasce alguém engraçado.
Nasce azedo.
Nasce casada.
Nasce cartomante.
Nasce medíocre.
Nasce rindo.
Nasce frentista.
Nasce matemático.
Nasce torto.
Nasce intelectual.
Nasce brasileiro.
Nasce fofoqueira.
Nasce afilhada.
Alguém nasce para fazer outro alguém feliz.
Nasce equivocado.
Nasce não-binário.
Nasce avó.
Nasce atraente.
Nasce impaciente.
Nasce desempregado.
Nasce elegante.
Nasce mística.
Nasce namorado.
Nasce tolerante.
Nasce hippie.
Nasce ateu.
Alguém nasce sem voz.
Nasce médica.
Nasce mãe de santo.
Nasce jornalista.
Nasce doce.

Nasce careca.
Nasce nojento.
Nasce judia.
Nasce ruiva.
Nasce equilibrado.
Nasce gigante.
Nasce tia.
Nasce míope.
Todo dia nasce alguém insuportável.
Nasce jardineiro.
Nasce agiota.
Nasce criativa.
Nasce prefeita.
Nasce nissei.
Nasce mineiro.
Nasce barbudo.
Nasce polícia.
Nasce mendigo.
Nasce apaixonado.
Nasce autista.
Nasce feio.
Nasce alguém generoso.
Nasce espírita.
Nasce estripper.
Nasce amiga.
Nasce sedentário.
Nasce nômade.
Nasce verdadeiro.
Nasce servido.
Nasce Umbandista.
Nasce sentado.
Nasce pescador.
Nasce entregador.
Nasce cantora.
Alguém nasce amargo.
Nasce acreditando.
Nasce escroto.
Nasce calmo.
Nasce freira.
Nasce modesto.
Nasce nordestino.
Nasce leitor.
Nasce correto.
Nasce negligente.
Nasce maçante.
Nasce sarcástico.
Nasce desajeitado.
Nasce um destruidor de sonhos.

Nasce alerta.
Nasce rigoroso.
Nasce emo.
Nasce alguimista.
Nasce infiel.
Nasce veterinário.
Nasce antirracista.
Nasce frio.
Nasce barrigudo.
Nasce carrasco.
Nasce impulsivo.
Nasce primo.
Alguém nasce desacreditado.
Nasce viajante.
Nasce audacioso.
Nasce herdeiro.
Nasce faxineiro.
Nasce médium.
Nasce correndo.
Nasce repositor.
Nasce operário.
Nasce bipolar.
Nasce homossexual.
Nasce Paulistano.
Nasce traidor.
Alguém nasce faminto.
Nasce individualista.
Nasce bailarina.
Nasce durona.
Nasce anestesiologista.
Nasce dominante.
Nasce espalhafatosa.
Nasce cristã.
Nasce loira.
Nasce saudável.
Nasce vegetariana.
Nasce tímida.
Nasce tatuado.
Nasce músico.
Todos os dias nasce alguém resistindo.
Nasce cansado.
Nasce palhaço.
Nasce corno.
Nasce frágil.
Nasce poliglota.
Nasce assustada.
Nasce barulhento.
Nasce piloto.

Nasce sudestino.
Nasce petulante.
Nasce contra vontade.
Nasce noiva.
Nasce alguém confiante.
Nasce enfermeira.
Nasce coordenador.
Nasce fraco.
Nasce agricultor.
Nasce friorento.
Nasce golpista.
Nasce sensual.
Nasce psicóloga.
Nasce pontual.
Nasce yogue.
Nasce historiador.
Alguém já nasce lutando.
Nasce corretor de imóveis.
Nasce exemplar.
Nasce ambientalista.
Nasce filósofa.
Nasce insensível.
Nasce pontual.
Nasce fotógrafo.
Nasce cientista.
Nasce canhoto.
Nasce um miserável
Nasce um privilegiado.
Nasce sensato.
Nasce assassino.
Nasce xamã.

Se não nasce sem vida.

Mabelly Venson
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DESEXISTIR

O adeus
persiste na ponta da fila.
Sufoco
Sufoco
Sufoco

Corações desistem.

Na treva
a revolta calada
grita os tantos por quês
Escorre pelo bueiro
a esperança.

Outra mãe
Outro filho
Outro amigo
Outro
Outra.

Mabelly Venson

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PRECISO mais uma vez desenterrar
o que acabei de cavar

chegar até o fim do corte
do tecido que está faltando
cerca de 212 linhas
pra chegar ao fim
fazendo os nove durarem dois

preciso soltar meus próprios braços
do meu próprio corpo

olhar de frente
a imagem do meu corpo
coberto de sangue e lágrimas
olhar de frente
meus olhos

preciso criar a imagem
que nunca vou ver
conseguir abraçá-la
para deixar
essa dor ir junto
com a fantasia
de tudo que nunca foi.

Victoria Elizabeth

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Nicola /Maria Cristina /Arlete / Jéssica / Clarice / Leucio /Monica / Mabelly / Victoria
CASA DAS ROSAS
ESPAÇO HAROLDO DE CAMPOS DE POESIA E LITERATURA
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[Fechado para restauro]

Jardim da Casa das Rosas: De segunda a Domingo, das 7h às 22h.
Governo do Estado de São Paulo
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