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MURAL LITERÁRIO

OFICINA FICÇÕES VIDA / Exposição Siron Franco
OFICINA FICÇÕES VIDA
por CAROL RODRIGUES e REYNALDO DAMAZIO
18/01 18H | ATIVIDADE PRESENCIAL
Terças e quintas-feiras, 18, 20 e 27 de janeiro, das 18h às 20h

Oficina de escrita baseada na exposição de Siron Franco, no jardim da Casa das Rosas, em que os participantes serão estimulados a produzir pequenas biografias ficcionais de personagens que foram vítimas do coronavírus, com seus dramas pessoais e familiares, abordando desde a dimensão humana à social. Além de visitas à exposição, também serão discutidos textos jornalísticos e de prosa, como material de referência para criação.

Autores:
Camila Pierobão
Eva Leones
Márcia Ribeiro Landsmann
Nicole Paulet Piedra
Mariana Caló

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QUAL A COR DA ALEGRIA?

Passei metade da minha vida desejando, a outra, me sentindo culpada por ter desejado. Mas quer saber? Já se foi meio século assim e se essa vontade sempre esteve presente então é só questão de tempo para acontecer, e eu estou cansada de adiar.
Disse aos meus filhos que sim, fui vacinar, tomei as três doses, tomo todos os cuidados e blá blá blá, adorava enfatizar as 10 gotas diárias de própolis que tomava sem pular um dia. Aqueles olhares de aprovação pela mamãe se cuidar, esse suposto amor que recebia de meus filhos sempre tinha requisitos a serem preenchidos antes de ser doado, e o meu estoque de enzimas para digerir hipocrisia tinha acabado.
Eu queria mesmo era sumir, sem grande alvoroço, sem ter que lidar com a piedade e repreensão dos olhares caso eu fracassasse na minha tentativa...
Vestida de amarelo, com os braços cheios de dourado, nunca estive tão exuberante, eu transbordava vida! Isso deve ser o subproduto da coragem de finalmente fazer o que se quer, no fundo ninguém se importa com o meu sofrimento, só me querem bem para eles não terem que lidar com o medo dessa decisão também chegar para eles.
Fui ao baile. Bebi do mesmo copo de um homem que tinha a oferecer sua tosse constante. Me entreguei à música. Por quê? Por que, mamãe, vir vestida de memória pela frequência das notas? Eu sei que a senhora fez de propósito, se vestiu de música pra vir me testar uma última vez. Quando eu era criança, você me fez prometer que eu não deixaria que ninguém tirasse minha felicidade, jogou para mim a responsabilidade de realizar os seus próprios desejos e foi embora. Voltou agora para me testar? Resolveu aparecer vestida de “Roupa Nova” para me levar 37 anos atrás? Veio dizer que sabe que quebrei a promessa? Como eu queria sentir seu colo, me dando forças pra ser uma dessas pessoas que não se perdem nos anos, eu queria ter feito mais, não posso culpar o tempo, talvez a minha necessidade de ser importante é que me tenha levado ao extremo, ao perceber que os outros vivem muito bem sem mim.
Na mesma semana, meus filhos já não conseguiram me ver, ficaram chocados com o fato de não haver no sistema do hospital registro de nenhuma das minhas três doses. Agora estão chocados? Agora? Bom saber que pro espanto eles têm tempo. Espero que agora eles venham me ver, agora que estou em lugar de destaque, no jardim da casa mais poética de São Paulo.
Eu olho de cima quem passa, isso mesmo, torçam os pescoços para me admirar, vejam a coragem que vocês têm medo de sentir.
Me alertaram que podia ser doloroso entrar para o além pela via que escolhi, só porque controlei o momento do meu adeus, mas até agora as únicas almas penadas que vi foram essas que lá debaixo atiram olhares curiosos sobre mim.

Camila Pierobão

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SÉRIE número 07

Primeira vez

Antes de dormir, rezou pela alma do menininho que ele atendeu, semana passada, no hospital.
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Negação

Não ficou. Não limpou. Não usou. Não tomou. Sofreu?
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Tsunami

No instante fatal, a segunda onda esgarçou as tramas e as cores da camiseta de sua banda predileta.
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Longe

Ela passava todas as férias escolares com os avós do interior até dois anos atrás.
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Vítima número 5

A última tarefa ordenada pela patroa convalescente foi a troca da água do vaso com flores na penteadeira.
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Rua

Hoje à tardinha eu trago um cobertor pra você.
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Café com bolo de fubá

Ela notou a perda do paladar uma semana depois da visita do sobrinho.

Eva Leones

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FLORÊNCIO de Kaingang

Meus pés não tocam o chão. De onde estou vejo com meu olhar de vidro corpos se movendo. Tento mexer braços, pernas e pés. Em vão. Só sinto um enorme peso e um ressecamento também, como se estivessem cobertos de barro seco. O frio em pleno verão me leva para o exílio onde nasci. Sinto o cheiro do mato manchado pela cultura alva, o gosto do poejo na língua e o cheiro da pele caju da minha avó. Parece até que isso aconteceu em outra vida. E foi.
Mas, não! Não chora Jorginho. Só presta atenção: ninguém viu a boca pedido água enquanto nossos olhos se tocavam. É nosso segredo. Agora está escuro, mas consigo perceber pessoas em volta de mim prontas para a festa, uma festa que em nada se parece com aquela que nos conhecemos.
Foi lá, sob os arvoredos nas proximidades da reserva de Arco-Íris (*), à beira do rio Feio, que senti pela primeira vez que de nada tinha adiantado a vó enterrar meu umbigo na aldeia quando eu nasci. Gostava de conversar com gato do mato, tatu peludo, jaguatirica, cobra e maritaca, mas sentia um prazer diferente quando o asfalto queimava meus pés no caminho de Tupã.
Os espíritos ancestrais já tinham corrido dali quando chegaram as gentes de toda parte pisando as terras e invadindo as redes, comendo nossa canjica, incapazes de escutar os cantos da floresta... foi aí que entendi.
Quase 500 quilômetros depois cheguei. Eu, Florêncio de Kaingang, com os olhos bestificados me percebi num transe de fome e espera na cama cinza e arisca das esquinas e escadarias finas de uma das principais avenidas da cidade. E bem ali, chorei de abandono e cantei:
andê teti ni (4x)
eixa un tentê, on tendnio betkã
cata in mã rrê tin
cata in mã rrê tin
eixa un tentê tiia tindimbru co tin
cata in mã rrê tin
andê tetini (4x) (**)

E então eu estava vivendo a história que me foi contada muitas vezes: minha avó de seios soltos e respiração forte me recebeu nas mãos enquanto minha mãe partia. Cortou meu umbigo com uma taquara e enterrou na aldeia perto do ipê amarelo. Meu berro doía no peito prevendo a afronta que me traria até aqui.

Tento trazer você, Jorginho, pra minha cabeça. Quero você adornando a tela da minha mente para que eu não esqueça. Só que cada vez que faço força para te trazer, mais nítida é a lembrança de quem jamais partiu.

Puxo o ar e só vem um sal azul de doer que rasga a carne, abraça os ossos e repatria meu corpo à terra. Só que dessa vez, as fogueiras não serão acesas para receber os chocalhos e cantos do kikikoi (***).

Márcia Ribeiro Landsmann

(*) Arco-Íris é um município localizado a oeste do Estado de São Paulo que abriga a aldeia Vanuire, que reúne os povos Kaingang,Terena, Krenak, Fulni-ô, Atikum e Kaingang-Krenak.

(**) O Canto da Formiga é um canto Kaingang na língua Jê, que conta a felicidade da formiga ao ver a moça socando milho, pois poderá comer os farelos que caem do pilão e alimentar seus filhos durante o inverno. Os versos traduzidos são:

O que carregas? (4x)/ Quando vejo a mulher / Socando algo (no pilão) / Eu fico feliz / Quando como as migalhas
do socado da mulher / Eu fico feliz / O que carregas? (4x)

Fonte: Disponível em https://www.cantosdafloresta.com.br/audios/canto-da-formiga (Acesso em 4/02/22)

(***) O Kikikoi é o ritual kaingang oferecido pelos parentes de um morto recente.

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Marina
Não havia manhã em que Marina Nascimento de Carvalho, residente e mãe do povoado do Centro do Meio, iniciasse as atividades domésticas com as duas alças da sua diária blusa florida postas no devido lugar. Apesar das roupas sempre parecerem feitas sob medida, confiantes e vigorosas, Marina costumava deixar espaço para a vida se mexer nela, começando no próprio corpo. Sempre me intrigaram essas alças em movimento e passava horas adivinhando em que preciso instante ela arremeteria os cabelos de um lado para o outro, solenizando a sua entrega às surpresas de cada jornada.

Ouvi falar que todo recém-chegado aceitava predestinadamente o trajeto que os vizinhos moldavam até a porta de Marina, incorporando atalhos e desvios estratégicos na troca de cordialidades para sincronizar a recepção dos visitantes aos interlúdios da sua rotina. Uma vez divisados desde a poltrona, ela estendia a mão sem pressa, segura de que os filhos de outros ventres que a rondavam habitualmente segurariam seu levantar. Desse modo, inaugurava o alistamento de nativos e forasteiros no sofisticado emaranhado de favores, convites e mandatos que faziam a roda da nossa cidade girar. Uma gerência simbiótica, imperceptível, que só a astuta delicadeza de Marina era capaz de sustentar.

Eu a seguia veementemente, procurando acompanhar o caleidoscópio de deveres e cuidados com os quais presenteava a comunidade que, naquele ano infinito, eu só conseguia enxergar desde o quintal onde uma pimenta estrangeira, plantada em comemoração da minha chegada neste mundo, guardava seus segredos.

O distanciamento não me impedia estudar cada passo que ela dava: tinha memorizado as rotas traçadas por seus pés, teimosos pela idade, e aprendido a projetar até as irregularidades que atraia como parte do caminho. Assim edificava suas pontes, com vistas a atravessar rios de impossibilidades. Apenas Marina para recolher sementes, ervas e raízes das hortas alheias, lenta e meditadamente, firmando acordos tácitos com um aceno mensurado em direção à janela do colaborador do momento.

Minha avó: a última descendente de uma linhagem de mulheres que instituiu a distribuição dos excedentes das safras para erradicar a fome e a tristeza. Seus cálculos eram justos, ninguém ousava a duvidar.

Observando-a cegado por um orgulho ainda ingênuo, comecei prognosticar as aglomerações extraoficiais que sua presença suscitava e que ela dissipava olhando no olho, como se os olhos falassem – e falavam. O ar preenchia-se de contato e de afeto, enquanto o tempo se dilatava com os dias contados. Ela sabia.

Dizem que a Dona Marina, que nunca chegou perto do oceano que levava no nome e no ser, gostava da mistura de prazer e desconforto que temperava suas comidas.

“É pra lembrar que a gente é gente, meu filho”.

Nicole Paulet Piedra

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DIQUINHA SIMPLES E FUNDAMENTAL

Vinte e nove de agosto, uma panela que não é de teflon faísca molho de tomate em cima do fogão e fora dele; a barriga feliz de Judite, esmagada contra a pia de inox, serve de apoio para as costas não tão eretas, e a postura dá forças para descascar dois quilos de batatas sem umidade.
Talvez hoje Judite levantou da cama com o pé esquerdo, talvez seu sono foi incomodado pelo sonho vívido com baratas e uma estante com livros de páginas em branco, talvez se preocupou com a peste que invade os jornais e as salas de emergência dos ricos e dos pobres, talvez, mas o resultados desses fatos isolados estão caindo sobre ela como uma chuva de verão às cinco da tarde: está atropelada, faz tudo com uma lentidão impregnada, demora até mesmo para achar a faca de serrinha com cabo branco. Remexendo os utensílios, num átimo de segundo, esquece da receita do nhoque, quanto mesmo de fermento, vai fermento? Não. Nada de fermento, a batata sem água e as gemas crescem a massa naturalmente, assim como uma doença devastadora que vai se multiplicando e invadindo a vida com morte.
E agora, encostada na pia, se arrepende, não aqueles tipos de arrependimentos bobos que suas netas insistem em ficar esperneando, lamentando as calorias extras que consumiram num bolo de chocolate doce demais, mas um peso, um nó na região do peito, uma vontade louca de encher os pulmões com ar, mais ar, muito ar e soltar pela boca num grito feio, algo meio urrado, desesperado. Ela não consegue; ao tentar respirar assim fundo o efeito é reverso e o ar não entra, está tudo bloqueado, tudo embaçado. As pernas ficam moles, os joelhos se curvam, batem na portinha do gabinete e ela vai caindo como uma lesma, como uma lágrima no rosto de uma criança que faz birra, insiste em cair, mas não cai de uma vez, é um movimento dilatado, dá até tempo de ela pensar que agora é a hora de revelar a receita para sua nora. Afinal, a Antonella, sua filha sangue do seu sangue, foi embora, se mandou pra tão longe que nem mesmo com essas porcarias digitais não fala direito, só manda uns oi tudo bem de vez em quando, faz umas chamadas de vídeo que não duram nem o tempo da propaganda da novela. Então o jeito é a nora mesmo, que essa já deu pelo menos duas netas e elas poderão levar a tradição. Pode ser que prefiram uma receita sem glúten, sem gosto, mas sua missão terá cumprido e passado adiante. É estranho, mas enquanto está no movimento de escorregar, no momento em que quase toca o chão, sente o cheiro do molho, e enxerga a sua própria nonna amassando as batatas com muita intensidade na mesa de madeira, não fala nada, apenas dá uma risada, não, uma gargalhada, e a nonna bem gordinha, que está sempre berrando e falando e dando opiniões onde não é chamada, pausa o trabalho para poder se curvar um pouquinho e rir, rir muito. Ela riu porque Judite perguntou qual era o segredo daquela receita. Uma pergunta inteligente para uma garota de 10 anos de idade, apenas isso que a nonna conseguiu falar, depois já foi para esse show, pra essa tragicomédia, e suas lágrimas rolam, bem diferente daquelas da criança que faz birra, e molham a massa.
Judite volta sua atenção para o piso tão frio, ela já está no chão e mesmo assim ainda fica em dúvida se a receita deve ser passada por completo, com todas as diquinhas simples e fundamentais, ou se não chega aos pormenores, a esse segredo, que deve ter umas lágrimas no meio da massa.
Ela fica ali observando o teto, começa a tossir muito, e o ranho do seu nariz escorre para o chão. Se vira de lado e tosse e funga, mas não chora, ainda nem terminou de descascar as batatas!
Depois tudo foi muito rápido: a nora chega, Judite não consegue falar nada e fica com o olhar catatônico, lembrando do mar tão azul da sua infância, quando mergulhava o sabor salgado tinha o mesmo gosto das lágrimas, o gosto da massa, o gosto de vida. É levada por um bombeiro para uma ambulância muito iluminada e vermelha, como seu molho. Será que alguém desligou o fogo? E colocam aqueles inaladores enormes no rosto dela e depois disso, só silêncio e escuridão.
Mariana Caló




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